Carine Corrêa

Manejo da Alma

“Somos arqueólogos da vida. Cavando nas profundidades do ser, buscando raízes e resgatando memórias para nos fortalecer”. Assim foi um dos momentos no viveiro ao lado da facilitadora voluntária Aline do Rocio Szneczuk, durante a manhã de quinta-feira de 4 de agosto de 2016. Para abrir as atividades, a proposta de um tema para nos orientar durante o manuseio com a floresta que cerca Nazaré. O tema? Fortalecimento.

Arrancar as raízes profundas do cipó Ora-pro-nóbis era nosso objetivo naquela manhã. Com todo cuidado, a facilitadora explicou que o cipó não era nosso inimigo: apenas o retiraríamos por uma questão de manejo da mata, para que as árvores pudessem respirar, valorizando assim suas copas que estão imersas no emaranhado do cipó. Com o auxílio das ferramentas, iniciamos nossa escavação ancestral. Muito além de buscar pelas raízes do Ora-pro-nóbis, explorávamos as profundezas do ser.

Como fortalecer sem resgatar as raízes? Como ter identidade, sem essa memória ancestral, cordão invisível que nos une de geração a geração assim como as ramificações interligadas do cipó?

Cavar e explorar o interior são as características do nosso arquétipo arqueólogo. Adentrar pelas profundezas, romper com o personagem que trilha um raso caminho significa encontrar pedregulhos e outros materiais indesejáveis. “Olha, encontrei um plástico ao cavar a terra”, digo para a facilitadora. Fora ainda os outros materiais que não consegui identificar.

A expressão popular ‘cortar o mal pela raiz’ nunca me fez tanto sentido. Embora carregue valores dualistas – bem versus mal – no qual não me agrada, pude perceber que retirar o cipó não havia apenas um significado ancestral. Tinha também o sentimento de ‘limpeza’, de retirar aquilo que não nos serve mais. Tirar raminhos da mágoa, cortar os espinhos da culpa.

A Aline sempre trazia um conhecimento para a atividade. Segundo ela, o cipó pode reter muito líquido, prejudicando o desenvolvimento de outras plantinhas irmãs que utilizam do mesmo substrato para manterem-se vivas.

Nesse momento, olhei para as copas das árvores sufocadas por Ora-pro-nóbis: minha cabeça é a copa do exemplar. Assim como o cipó sufoca a copa, os emaranhados dos pensamentos obstruem a ascensão de minha essência. Ora, pro-nóbis, quanta ousadia! A vontade instantânea é de sair cortando tudo, passar o facão no cipó. Mas, não é bem por aí. É preciso fazer o manejo; da alma.

O resultado deu-se no dia seguinte. Na tarde do dia 5 de agosto, sexta-feira, um novo encontro com a facilitadora. O convite feito no almoço, era para auxiliar na produção de móbiles de flores, que serão utilizados na Sala da Mata como uma forma de sinalizar aos passarinhos. Ideia de Sônia Café. Para abertura da atividade, o tema ‘florescer o sagrado feminino’.

E assim recapitulei: cavar a terra, buscar as raízes e se fortalecer. As flores que enfeitarão a parte externa da sala da mata irão comunicar aos passarinhos essa transformação.

Quem sabe a mensagem voe até Deus.

*Experiência vivenciada na Uniluz, situada na cidade de Nazaré Paulista. Acesse o portal da Uniluz em: http://nazareuniluz.org.br/

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