Carine Corrêa

A liberdade de Juma

Impossível não sentir dor, ao olhar a foto ao lado. Quem está acorrentada no centro das atenções, ou melhor, no Centro de Instrução de Guerra na Selva [pausa: calma. Guerra? Na Selva? Ok, não entendi, mas voltemos], pois bem, quem está acorrentada no centro das atenções é a onça Juma, sacrificada durante passagem da tocha olímpica por Manaus na última segunda-feira, dia 20. A Tocha Olímpica também visitou a cidade de Catalão-Iranduba no mesmo dia, especificamente a comunidade ribeirinha Canoas Caboclas. Uma foto que circula pelas redes sociais mostra uma pessoa “nadando” com os botos. Os animais foram provocados para que pulassem da água e aparecessem na foto. Opa! Selfie para Rio 2016 e divulgação de toda diversidade da fauna do Brasil para todo o mundo. Não é bem assim. Um dia depois da Juma ser sacrificada, ou melhor, assassinada, o Comitê Rio 2016 publicou uma nota em sua página oficial nas redes sociais: “Erramos ao permitir que a Tocha Olímpica, símbolo da paz e da união entre os povos, fosse exibida ao lado de um animal selvagem acorrentado. Essa cena contraria nossas crenças e valores. Estamos muito tristes com o desfecho que se deu após a passagem da tocha. Garantimos que não veremos mais situações assim nos Jogos Rio 2016”.
Eu olho de novo para foto ao lado. Com as mãos em um lado do rosto, faço sinal de negação em silêncio, aqui na minha mesa da Redação. Não consigo entender os dois homens armados logo atrás de Juma e o propósito que o Exército quis alcançar com essa imagem. Prefiro pensar a morte como sua liberdade. Agora sem as correntes, a onça circula pela mata amazônica, com o rugido mais forte e isenta do ferro no pescoço; um reencontro selvagem com o seu verdadeiro território.

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