Favari Filho

“Jovem Célia”

Recheio: duas colheres de manteiga; uma cebola picada; dois dentes de alho; um quilo de peito de frango desfiado; meio quilo de batata; salsa; ovos cozidos. Massa: quinhentos gramas de trigo; três colheres de óleo; duzentos mililitros de água [+ ou -]; uma pitada de sal. Dessa forma está descrito o passo a passo da ‘Empada Frita’ no livro ‘Passageiros da Vida’, de Roraima Alves da Costa. Não, não é um fascículo de receitas, tampouco um dos escritos do autor, mas sim uma anotação na última página escrita com caneta vermelha em letra cursiva.

Acredito que o processo deva resultar em um salgado delicioso, tão saboroso quanto os versos do poeta, porém o que intriga desde que a obra passou a integrar a minha biblioteca há uma década é: quem escreveu a receita? Toda vez que retorno às suas páginas e releio trechos como “As academias são centros de mediocridades diversas e põem fortes obstáculos aos inovadores” ou “Grandes homens são aqueles que têm o hábito da livre iniciativa e que não se aliam ao parasitismo social”, aumenta a minha curiosidade tanto sobre Roraima, quanto sobre a antiga dona do livro, a ‘jovem Célia’, conforme descreveu o autor na dedicatória.

O lançamento da obra data de 1985, portanto não existiam as famigeradas redes sociais para tirar a atenção e imbecilizar as pessoas, mas, ainda assim, à época, apenas três por cento da população brasileira tinha algum interesse pela leitura. Então, conjeturo curioso: quem era Célia, uma leitora em meio àqueles 136,2 milhões de habitantes? Seria uma especialista em culinária – aquilo que chamam de masterchef – e, não bastasse, apaixonada por literatura? Ou teria a jovem recebido um telefonema de uma amiga e, na pressa do cotidiano que a todos escraviza, apanhou o primeiro papel que tinha ao alcance das mãos e calhou de ser o livro? Há também a hipótese de que Célia não tenha nenhuma ligação com o escrito e, algum dos muitos donos que o volume teve até chegar em minha estante, seja o responsável pela anotação. Enfim, ene possibilidades, porém muito agrada a ideia de que Célia apreciava tanto o alimento para o corpo [a empada] quanto o alimento para a alma [a poesia].

Sim, a escrita de Roraima é um rico alimento para a alma, aliás, acerca de sua obra, Ariano Suassuna – certamente lembrando Mallarmé quando o poeta e crítico francês discorreu sobre os possíveis versos do pintor impressionista Degas – escreveu no prefácio: “Não é somente com os sentimentos que se faz poesia, é com palavras capazes de despertar em quem lê os sentimentos sonhados pelo autor. Acredito que a linha e as palavras adotadas por Roraima são capazes de despertar os sentimentos que sonha”. Pois é, estou certo de que a leitura de Roraima sempre despertará para um sonho bom, daqueles também possíveis com as linhas de Drummond, de Manoel de Barros e de Pessoa.

O meu livro preferido do autor de ‘De encontro à realidade’, ‘Nós… Mutantes’, e ‘Pane’ é ‘Concreto, Aço e Sonhos’. Aforismos como “Cada homem é uma força de trabalho. Aquele que não trabalha, é inimigo da sociedade” ou “Quem suporta a maldade alheia está condenado a sua felicidade” fazem com que algo desperte e lateje dentro do peito visceral. Pouco sei sobre Roraima para além de sua obra, apenas que não tem Facebook e nem vida ativa na internet. Porém, com uma rápida googlada, constatei que participou do ‘Projeto Jovens Escritores do Brasil’, em Samambaia, no Distrito Federal, no ano de 2015. Atualmente, o escritor que andou à margem do mercado editorial e vendeu centenas de milhares de exemplares deve contar pouco mais de sessenta anos e, talvez, ainda continue caminhando pelo Brasil, semeando literatura para que, quem sabe?, algum dia brote mais humanidade entre as pessoas; quanto à jovem Célia, nada além que apenas um nome em uma dedicatória.

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