Favari Filho

Homens e livros

O conheci quando estagiava na Biblioteca Pública Municipal Infanto-Juvenil Zeferina Quilici Tedesco, um local, aliás, de que guardo muitas lembranças, pois foi onde tive o primeiro contato com os livros ainda na primeira infância no início dos anos 1980. Trabalhar ali pouco mais que um quarto de século depois foi uma experiência demasiadamente importante para minha biografia e, ainda que não ocupasse o mesmo prédio na esquina da casa em que morei no Cervezão, em alguns livros encontrei os registros de retiradas com meu nome nas fichas amareladas com o tempo.

Quando a patota de ‘O Beta’ foi convidada para colaborar com José Roberto Sechi no encontro internacional ‘Flux 2008 – Arte Postal e Poesia Visual’, estreitei ainda mais a relação com o, à época, secretário de Cultura da Cidade Azul. O que posso dizer a seu respeito é que era uma pessoa extremamente culta que aprendeu com os livros o poder do conhecimento; durante o processo de organização do evento conversamos muito, às vezes por horas, e, confesso, não fazia elucubrações desnecessárias, ao contrário, era direto e claro nas suas colocações.

O ‘Flux 2008’ contou com a participação dos maiores expoentes da poesia experimental do Brasil e do mundo. Na ocasião, o Casarão da Cultura teve trabalhos expostos de duzentos e vinte artistas de trinta e quatro países, além da presença física dos poetas brasileiros Hugo Pontes, Paulo Bruscky, Roberto Keppler, do argentino Silvio de Gracia e do uruguaio Clemente Padín; também marcaram presença os performers argentinos Javier Sobrino, Andrea Cárdenas e Claudia Ruiz Herrera.

Logo depois do evento, naquele sábado, jantamos no Akamine e, sentado à mesa posta, junto de Lourenço Favari, Ricardo Leão, Sechi e dos demais convidados, testemunhei Paulo Osório conversando com algum interesse e desenvoltura acerca do movimento ‘Fluxus’ – iniciado nos anos 1960 por artistas europeus, americanos e asiáticos e que inspirou o evento em Rio Claro –, George Maciunas e Marina Abramović. Depois, partimos para a Sechiisland onde Padín propôs um brinde e soltou a frase que, jamais, nenhum de nós que estávamos presentes, esqueceremos: “Nesta noite, o núcleo da Arte Postal mundial está reunida nesta ilha”. Um grande momento para a arte local, acredito.

O episódio me ocorreu porque na semana passada circulou a informação de que a biblioteca pessoal do também ex-deputado – doada pela família de Osório ao município depois de sua morte – não estaria recebendo os devidos cuidados, fato que foi prontamente negado pela atual administração em matéria publicada no JC. Entretanto, independente do fim que tiveram ou terão os livros, o que intriga é o descaso da sociedade com a leitura; cada vez mais, menos brasileiros leem e isso reflete diretamente na vida de todos, pois com menos conhecimento as chances de errar aumentam, principalmente nas urnas. Por isso, sugiro que cada um de nós – que temos o hábito de ler mais que apenas as manchetes dos jornais – plante a semente da leitura em nossos filhos, sobrinhos, conhecidos, pois como bem disse o autor de ‘O sítio do Picapau Amarelo’, “um país se faz com homens e livros”.

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