Carine Corrêa

Guardiões da Floresta

Certa vez, um amigo me contou que, durante uma tarde de saudação ao Sol, sentiu-se um guerreiro da Terra, guardião da floresta. Cada batida do tambor que entoava representava por meio do som uma mensagem de afastamento para todo aquele que poderia vir a ferir a mata. Hoje ele trabalha na Fundação Nacional do Índio (Funai) e, dentro dos sistemas burocráticos criados pelo ‘homem branco’, procura defender as dificuldades encontradas pelos povos indígenas.

“Eu lutei desde quando era criança. Eu nasci nesse lugar, nessa região. Antes eu estava nascendo, agora tô meio grandinho. Eu vou lutar pelo meu chão aqui.” Esta é a fala de um pequeno índio da tribo Guarani Kaiowá durante um vídeo que foi gravado para dar voz à resistência da tribo. A resistência é frente à ordem de despejo de uma área (150 hectares de terra) em Douradina, Mato Grosso do Sul. Ao menos 23 famílias Guarani Kaiowá devem ser despejadas na próxima segunda-feira (22).

Em julho de 2015, a comunidade sofreu ataque de pistoleiros e decidiu resistir e permanecer no local. Agora, a Justiça concedeu reintegração de posse a um fazendeiro .

A divisão política da Terra para fins econômicos não faz sentido para as tribos, cuja relação com o ambiente tem como base outros valores, entre eles o respeito à Mãe Terra. Compreendem a unicidade: que somos parte de um todo. Logo, feri-la significa ferir a nós mesmos. Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou uma carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois do governo americano ter dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. O desabafo do cacique – feito há mais de um século e meio – nos faz refletir quanto a essa lógica burocrática criada em nossa relação com a Terra. “Toda esta terra é sagrada para o meu povo. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar: animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem a gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora.” De volta a 2016, no drama da tribo Guarani Kaiowá, uma senhora desabafa no vídeo. “Nossos bisavós e tataravós foram expulsos daqui.” O homem civilizado desligou-se de suas raízes selvagens. Resgatá-las é dar um novo significado à sua relação com o planeta.

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Um comentário

  • Antônio Achel
    9 de março de 2016 - 01:49 | Permalink

    Reflexão salutar querida Carine. A estrutura fundiária etnocida de nosso país, e além, é contra-evolutiva. O povo Guarani não tem fronteiras. A Terra sem Males é guia. Vivemos pois outros seres vivem e vieram antes. Biodiversidade e Multiculturalidade são vitais. Pela oportunidade de estar vivo é preciso gratidão!

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