Fabíola Cunha

Filmes que são presentes

Quando terminei de assistir à “Obvious Child”, estava sorrindo: a comedia romântica havia tratado de um assunto espinhoso com leveza e, principalmente, bom senso.

A protagonista está mais próxima dos 30 que dos 20 e divide o tempo entre sua paixão, a comédia stand-up em bares, e o trabalho como funcionária de uma livraria pequena em Nova York.

No palco, ela não tem pudores para expor seu lado patético, cômico e absolutamente humano. Quando o namorado a deixa por outra, ela entra em uma espiral de bebedeira e autopunição que culmina em um erro que tantas pessoas cometem, mesmo as que se comportam como princesas e príncipes: sexo sem preservativo.

Algumas semanas depois, o corpo dá sinais de gravidez. Ela chora, é confortada pela melhor amiga, procura o serviço de saúde e opta pela interrupção da gravidez, um direito feminino que para a personagem é garantido por lei.

Nos dias que antecedem o procedimento, ela reflete sobre o lugar das coisas em sua vida, descobrindo também que sua mãe passou pela mesma experiência na juventude, porém quando o aborto ainda era proibido.

E também aproxima-se do homem com quem errou ao não usar preservativo, hesitando justamente por estar passando por uma situação delicada que o envolve quase diretamente – quase, porque o corpo e a decisão são dela e isso é claramente inquestionável.

O filme não precisa ser didático para expor o que muitas pessoas teimam em ignorar: “corpo dela, regras dela”. Não há desespero, agressão, cerceamento dos direitos aqui. Há sim, hesitação, melancolia: não é um passeio no parque, não é um erro que ela vai distraidamente repetir, não é fácil, mas é o que ela quer e o que ela tem o direito de ter.

Lembrei de “Juno”, onde uma adolescente grávida decide que vai levar a gestação até o final, mas garante melhores condições de vida entregando o bebê a um casal, com o apoio do pai. Novamente, um filme cuja “mocinha” é protagonista de sua própria vida, tomando decisões e suportando as consequências.

Ambos são filmes que não julgam: você pode até não concordar com a interrupção da gravidez, por exemplo, mas assiste a uma personagem que não é desenhada como um monstro optar por isso e dar continuidade à vida, sofrendo sim, mas protagonizando, encarando, definindo como lidar com seus próprios erros, em busca de acertos.

São dois filmes norte-americanos, onde a legislação para esse assunto é mais liberal que no Brasil. Aqui, caminhamos a passos lentos, incertos, rumo ao entendimento de que as regras que se aplicam ao corpo da mulher devem ser definidas por ela apenas. Será que vamos um dia entender que senhores de terno cinza não devem decidir o que uma mulher cuja realidade eles desconhecem deve fazer em casos como o exposto em “Obvious Child”? Não sei.

Apenas sei que gosto ainda mais do cinema quando sou presenteada com filmes assim, que me mostram que há sim, outras realidades para além da atual, realidade na qual seríamos senhoras do nossos corpos e destinos, sem legisladores cerceando nossos direitos à (dura) escolha. 

Outros posts deste autor
Coutinho, o cabra marcado para morrer
Documentários para ver ontem
“Você não pode se livrar de Babadook”
As mulheres badass do cinema
Tanta coisa acontecendo e você aí preocupado com Oscar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

JCblogs Produzido por Gabriel Ferrari Mariano