Favari Filho

eletrônica.doc

Já faz um tempo que este documento de word estava salvo no meu desktop com o título ‘eletrônica.doc’. Sempre quando ligo o computador olho para o ícone e penso: ‘preciso terminar o que começo’. A verdade é que sempre vou protelando o término de uma porção de textos e não sei o porquê, talvez devido acreditar que a mensagem precisa ter pouco mais que poucas palavras para merecer ser escrita e, sobretudo, estar pronta dentro de quem escreve antes de vir para a tela; sei lá, apenas elucubrações textuais…

O acaso é mesmo uma forma de proteção, conjeturo enquanto bebo o café. Hoje pela manhã estava saindo do meu prédio – como costumo fazer diariamente apenas para andar à toa pela Blue City sentindo sua quadriculada geografia e observando suas constantes contradições, as pessoas em movimento (apressadas para quê?) construindo o futuro material – e algo aconteceu que retomou a memória o arquivo na área de trabalho do meu notebook.

Nele [o arquivo], um esboço sobre um fato ocorrido e muito importante para minha formação. O ano era 1993 e o mundo era completamente outro, a informação chegava lenta ou quase não chegava, principalmente no Cervezão. A novidade tinha a velocidade de ‘Lúcia-Já-Vou-Indo’. Na última década do século XX, os adolescentes que queriam ouvir algo novo e diferente tinham de encontrar uma ‘Eletrônica’ para fazer os updates, até pela facilidade com que as coisas rolavam nessas ‘casas de cultura’ à moda antiga. A que frequentei era um lugar fantástico com muitos rádios, discos, fitas e, sobretudo, músicas novas, coisas de fora, rock and roll, baby!

Tomamos conhecimento do que acontecia em Seatle, por exemplo, a partir do álbum Nevermind, do Nirvana, que, pasmem!, completou vinte e quatro anos na semana passada. Começamos de frente para trás, como quase tudo na vida (!). O estabelecimento pertencia ao irmão do Bernardino [contrabaixista de primeira ordem com quem atuei na lendária ‘Mundana’, banda que contava também com Claudinho, Zenildo e Régis]. O bacana do local é que sempre havia uma música nova tocando e uma fita K7 para copiar. Ali, fui tomando ciência de que existem apenas dois tipos de música: a boa e a ruim. E como foi bom descobrir naquela eletrônica e com aquelas pessoas que havia outro mundo para além da linha do trem, um mundo com pessoas que diziam o que queríamos ouvir, e com verdade!

Neste instante, enquanto releio as anotações do documento percebo que anotações são sempre bem-vindas. Mais, concluo como é bom encontrar alguém que nos remete a um passado tão rico e, de repente, em um átomo de segundo, tudo que estava guardado para um dia escrever se inscreve dentro da gente com apenas um aperto de mão e um abraço sincero. Foi assim com esta crônica. Ao sair de casa, na rua do meu prédio, encontrei o Régis. Que alegria! Foi muito bacana constatar que estamos de cabelos brancos, ambos – ele mais, é verdade! –, e que já nem temos tempo para ouvir as novas canções que, agora, são responsáveis por outras tantas histórias, cujo protagonismo pertence a outros jovens que continuam a atuar no infindável teatro da vida.

E o texto finalmente ficou pronto.

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Um comentário

  • 4 de outubro de 2015 - 14:05 | Permalink

    A certeza do progresso é que as gerações se sucedem. E com elas os modos diferentes de ver e viver a vida. Como sempre, encontro algo interessante para ler por aqui. Abraço. Aguardando a próxima.

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