Fabíola Cunha

Documentários para ver ontem

Dois documentários biográficos recém-vistos me comoveram pela forma como retrataram seus objetos de análise: sem puxa-saquismo. O puxa-saquismo é um dos maiores males da humanidade, pois uma vez puxa-saco, sempre puxa-saco e nunca digno de respeito. Não é o caso aqui: os protagonistas foram retratados de forma que resvala tanto no divino quanto no demoníaco.

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Life Itself – A vida de Roger Ebert

“Life Itself” foi gravado quando Ebert estava perdendo uma longa e dolorosa luta contra o câncer, que então já havia levado sua mandíbula e junto com ela, a capacidade de comer, beber e falar. Mas quem é Roger Ebert? Um jornalista que é referência para 9 entre 10 críticos de cinema, que popularizou a crítica tendo apresentado programas de TV sobre o assunto, escrito livros e elaborado seu próprio festival, o EbertFest, onde reúne filmes que não receberam o merecido reconhecimento . É o único crítico de cinema a ter ganho o Pulitzer, prêmio máximo do jornalismo mundial.

O documentário é bem humorado, pouco afeito ao melodrama fácil e muito honesto, como seu protagonista – o que pode ser difícil nas cenas em que Roger expõe sua condição de vida durante o câncer, tendo suas vias respiratórias limpas por sucção em frente às câmeras ou irritado, querendo falar sem conseguir. Usando uma voz computadorizada que pronuncia o que ele digita, Roger expressa tudo pelo olhar, e isso já é o suficiente para dar um nó na garganta de qualquer mortal com um coraçãozinho pulsante. Roger morreu durante as filmagens, em 4 de abril de 2013, aos 70 anos. A descrição do momento de sua morte pela esposa, Chaz, é uma das cenas mais bonitas e amorosas que já vi em um documentário.

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Joan Rivers: A Piece of Work

Embora um pouco menos rico, o documentário sobre a comediante Joan Rivers, que morreu em setembro passado aos 81 anos, também prima pela honestidade. Rivers alterna momentos de grande independência e combatividade com outros de grande insegurança e necessidade de aprovação – o que explica sua obsessão por cirurgias plásticas e decepção com as críticas mornas de uma peça.

Pioneira do humor stand up, ela colocou no palco, muito antes dos milionários comediantes de hoje, questões delicadíssimas, especialmente para uma mulher, como interrupção da gravidez, maternidade e homossexualidade. Soando agressiva às vezes, mas nunca burra, ela parece falar o que muitos pensam mas não tem coragem de dizer, seja sobre outras pessoas ou sobre ela mesma:

“A única vez que minha filha realmente chorou foi quando eu me sentei com ela e disse que ela não era adotada” – Ao “The New York Times”, em dezembro de 2008

O que leva, é claro, às suas dificuldades financeiras. Gastando muito (ela mora em um apartamento que parece saído de uma filme sobre Maria Antonieta) e se apresentando pouco, ela mostra no documentário, rodado quando contava 75 anos, que simplesmente tem que aceitar qualquer trabalho que apareça.

*Os dois documentários estão disponíveis pelo serviço de streaming Netflix

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