Vivian Guilherme

Deus? Uma superfície de gelo…

Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso. Isso era Deus. E eu venho me ancorando nessa frase há algumas semanas. Vira e mexe ela volta. No meio da tarde, no finalzinho da noite, ao acordar. Lá vem ela. Fiquei tentando entender o porquê da frase de Hilda voltar com tanta frequência repetidamente. Ponderei que poderia ser um sinal. Ou não. De qualquer forma, deu vontade de ler mais uma vez “Com meus olhos de cão”. A última foi há, pelo menos, seis ou sete anos.

Passei cerca de dez meses lendo as 53 páginas de “Com meus olhos de cão”. Diuturnamente. Era 2004, um ano antes de concluir o curso de Letras e tinha sido contemplada com uma bolsa de Iniciação Científica. Antes disso nunca tinha ouvido falar em Hilda Hist. Gostava de Clarice, mas era tão clichê que achei demais produzir mais um estudo sobre Lispector. A professora e sábia Inez indicou Hilda, disse que da linguagem eu iria gostar e que ainda era pouco estudada.

Fui ao Gabinete de Leitura e a Cris me mostrou um livro que tinha uma compilação de contos da autora, o primeiro deles era “Com meus olhos de cão”. Não passei do primeiro conto. Me apaixonei completamente por Hilda naquele exato momento. Fiz o projeto e estudei todas as linhas, vírgulas e pontos do conto ao longo de 2004. Aprendi a tal análise do discurso e nunca mais parei de ler os textos de Hilda.

Na semana passada, achei que a insistência da primeira frase do conto, em vários momentos do meu dia, merecia uma atenção e fui ler mais uma vez. É tão interessante perceber o quanto a leitura de um texto nunca é a mesma! Se eu fosse ler hoje, de novo, com certeza interpretaria de outra forma.

Amós Kéres, quarenta e oito anos, matemático, estava curto-circuitando. Pequenos lapsos eram na verdade muitos minutos e o que era já não era mais e a combinação das letras não fazia mais sentido. Não sei se essa leitura é de agora, ou se é a interpretação de ontem, mas é como vejo Amós hoje. Alguém que parou para pensar na engrenagem ilógica que é a vida, no Infundado e no motivo transcendental de tudo. Pirou.

Agora, recomendo a você, hoje, reler um texto, um livro, um conto que há muito não lia. O que salta aos olhos é sempre do que a gente precisa…“Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso. Isso era Deus. Ainda assim tentava agarrar-se àquele nada, deslizava geladas cambalhotas até encontrar o cordame grosso da âncora e descia, descia em direção àquele riso.”

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