Favari Filho

A crise hídrica no Estado de São Paulo. Ou: Melinda e Belinda

Na altura do quilometro 72 da Rodovia Wilson Finardi existem duas árvores, uma de cada lado da pista, que devem estar ali há muito tempo, pois são altas e têm os troncos marcados por ventos secos e castigados pelo sol. Não sei qual a espécie, mas possuem protuberantes lanticelas que ajudam na oxigenação. Diariamente avalio, claro que sem nenhum embasamento técnico, a condição climática da nossa região e noto que, mesmo com algumas pancadas esparsas que tem acontecido, a falta de chuva deixa toda a vegetação mais triste, menos verde e seca, dando ao local um ar semiárido.

Muitos comentários têm sido feitos acerca da seca que acomete São Paulo. Comentários divididos entre os que acham que a culpa é do governo do Estado, alegando que não foram tomadas as devidas providências, e os que atribuem a culpa ao governo Federal, que não se dispôs a ajudar em tempo hábil. Mas será que a culpa é somente das autoridades? Sim, as autoridades têm sua parcela de culpa e até tentaram durante as eleições fazer da falta d’água uma arma de guerra no garimpo de votos, como foi feito com o Bolsa Família. Porém, logo depois de empossada, em um gesto cínico e displicente, a presidente reeleita disse que o diálogo estava aberto no intuito de fazer uma parceria com o governo paulista.

Dilma Roussef chegou a dizer que o governo federal sabia que havia um diagnóstico sobre segurança hídrica realizado pelo governo paulista, no qual era elencada uma série de medidas que deveriam, mas que não foram tomadas. Pergunto: por que não foram tomadas? Eu mesmo respondo: porque em ano de eleição não se faz outra coisa que não seja promessas. A questão do abastecimento de água é grave e de responsabilidade tanto do governo do Estado quanto do governo Federal, ou será que vão continuar a dividir o Brasil entre “nós” e “eles”?

Há poucos dias, entretanto, o governador Geraldo Alckmin e a presidente firmaram acordo no valor de R$ 3,2 bilhões para o abastecimento de água e mobilidade urbana no intuito de prevenir a seca, porém as obras não são para agora e, apesar da chuva que vem caindo nas últimas semanas, o nível dos reservatórios que abastecem principalmente a cidade de São Paulo continua caindo. A cerimônia de assinatura do contrato entre Estado e União aconteceu no Palácio do Planalto e pode representar um bom começo no diálogo entre os partidos rivais.

Contudo, sinceramente, creio que o problema da água está muito além dos reservatórios e de todo esse mise en scène entre Dilma e Alckmin, ou seja, é uma questão de educação, pois o desperdício é enorme, principalmente nas grandes cidades. Do mesmo modo, a emissão de gazes poluentes e o desmatamento são fatores preocupantes que produzem mudanças climáticas. O que me pergunto, do alto da minha desconfiança, é: será que o acordo firmado fará diferença se não houver o constante exercício de conscientização? Melinda e Belinda, forma como batizei as duas árvores da SP 191, precisam de chuva (e chove desde ontem) para voltar a florir, já nós precisamos de políticas públicas nas escalas federal e estadual que promovam a possibilidade de um amanhã um pouco melhor.

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