Carine Corrêa

Ciclo que alimenta as formas de vida

Anos atrás soube da morte de um senhor, conhecido como um exímio jardineiro. Jardineiro que aprendeu a cuidar das plantas pelo conhecimento passado através de gerações. Seu filho é um conhecido idoso que tem habilidade com as abelhas e colhe seu mel. Mora em Rio Claro, em uma casinha ao final de um dos bairros da cidade (deve ter herdado do pai o gosto por cuidar da terra).

A história da morte do senhor ficou conhecida lá no bairro. Isso porque se deitou em um pé de mangueira, que ele mesmo plantou anos atrás, e nunca mais acordou. Essa história circulou naquela região e foi o assunto da semana. O que seria o lamento de uma perda, acabou se transformando em uma linda história de desencarnação.

Fiquei aqui tentando lembrar quando que plantei minha primeira árvore, e a lembrança mais antiga que tenho de plantio tem origem em Paraty, Rio de Janeiro. Quando ia visitar primos e tios, a primeira vontade que tinha era de ir para casa do Tio Gildo, colher um cacau do pé, quebrá-lo com a ajuda do primo Heverton e saborear a ‘carne’ em volta das sementes. Uma por uma, íamos cuspindo na terra e, no íntimo, esperava que fosse ver alguma das sementinhas brotar. Também lembro, em uma das visitas, de ter plantado alguma plantinha com meu pai. Na verdade, ele é quem plantou, logo ao lado da garagem, cuja porta de madeira era gasta pela brisa do mar. Nos pés de meu pai estava eu agachadinha, só espiando – como dizia minha vó – o seu manuseio com a terra. Anos depois, agora me arrisco em dizer que não há mortes. Entre novas vidas e encerramentos de outras, vamos alimentando todo o ciclo orgânico, por anos e anos. Formam-se fósseis. Decompõem-se, mas estão aqui, na Terra. A morte, assim, se transforma em vida.

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