Favari Filho

Cazuza revisitado

Não sei se o sol, o trânsito da Avenida 4, os pastéis do seu João e da dona Margarida na feira do São Benedito, a coluna do Demétrio ou todas as alternativas juntas tornam as manhãs de sábado mais coloridas e diferentes dos outros dias da semana, em que nos ocupamos com um sem-fim de afazeres monocromáticos e corremos sem saber para onde e nem o porquê (Olá, como vai? – Eu vou indo e você, tudo bem?), vivendo sem notar a morte e morrendo sem sentir a vida(!). O sábado é o dia mais agradável da semana e, tão bom quanto, é a expectativa propiciada pela sexta-feira à noite, principalmente quando figura entre os planos o garimpo de alguns discos na loja do Jhonny.

Adoro o cheiro de pó, papel e fritura que têm as minhas manhãs de sábado, sensações que se repetem há muitos anos e que sofrem apenas pequenas alterações quando obrigações externas à minha vontade impedem de cumprir o ritual que alimenta tanto a alma, quanto o corpo. Mas o assunto de hoje é o Cazuza (que dispensa apresentação), mais especificamente o disco ‘Burguesia’, lançado em 1989. Em agosto completam vinte e seis anos desde que, ainda que muito debilitado, o cantor presenteou os brasileiros com um álbum cujas letras (escritas em um momento muito difícil e musicadas por amigos que o visitavam frequentemente na Clínica São Vicente) são encharcadas de poesia cuspida com ódio e amor.

A obra conceitual tem vinte músicas divididas em quatro lados de dois discos de vinil pertencentes a um álbum duplo com nove e onze canções, respectivamente; o primeiro com rocks e o segundo com emepebês. O elepê conta também com as belíssimas regravações de ‘Quase um segundo’, d’Os Paralamas do Sucesso, e de ‘Esse cara’, do Caetano Veloso, e, além das parcerias habituais, a canção ‘Azul e Amarelo’ é assinada por Cazuza, Lobão e, pasmem!, Cartola. Mesmo reconhecendo a importância da controvérsia (!) faixa-título – que ainda hoje soa contundente como grito de contestação e luta de classes – a que toca e torna o disco inesquecível é ‘Quando eu estiver cantando’, quase uma despedida para ouvir como oração.

Há muitos anos namorava este disco na prateleira lá do sebo (desde que a loja ficava na Rua 3) e sempre deixava as minhas digitais enquanto o olhava com um misto de saudade (não só do artista, mas também de uma época em que o Brasil colecionava talentos deste quilate) e contemplação (por saber que a obra é eterna e que, mesmo diante do lixo musical que assola as efeêmes, as canções estão aí prontas para serem ouvidas). Todas as vezes que o pegava nas mãos, lembrava outro poeta, Renato Russo, dizendo: “Essa é a última música do último lado do último disco de Cazuza”, antes de interpretar de forma magistral ‘Quando eu estiver cantando’ em uma gravação ao vivo. O líder da Legião Urbana ainda emenda ‘Endless Love’, de Lionel Richie e Diana Ross, no final. Algo sensacional, que une os dois maiores poetas do rock nacional em som e essência.

Não sei por que nunca comprei o disco antes, mas acredito que queria manter uma relação de desejo e mistério com o objeto a que devotava (e ainda devoto) um prazer tátil comum àqueles que preferem guardar um momento especial em um lugar entre a memória e a alegoria. Claro que todas as vezes que o via no sebo não se tratava do mesmo objeto, até porque a rotatividade de mercadorias nesse tipo de comércio é muito grande, mas virava e mexia aparecia outro ‘Burguesia’ na prateleira. O importante, entretanto, é que o disco agora integra a minha coleção de vinis e, da mesma forma, a sua história na História acaba de entrar, definitivamente, para a minha história.

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