Carine Corrêa

Capítulo 2: Onça-pintada?

Os boatos agora em Rio Claro se voltavam para outro felino: a onça-pintada. Um vídeo que causou efeito viral nas redes sociais provocava indignação na Hannah. Pesquisadora muito aplicada, ela não conseguia entender o porquê um animal com características tão distintas estava sendo confundido pela onça-parda, o mamífero que estudava em sua pesquisa e o felino que realmente habitava a Floresta Estadual Edmundo Navarro de Andrade (Feena). O vídeo mostrava as imagens de uma onça-pintada próximo a uma ponte. Foi o suficiente para que os rio-clarenses acreditassem que se tratava da ponte próximo da capela, logo no acesso para o lago principal da Feena, quando na verdade, o vídeo havia sido gravado em Mato Grosso.

Além disso, a jovem cientista tinha que lidar com um outro enigma. Enquanto a fundação responsável pela floresta comunicava que a unidade abrigava apenas um casal de pumas, o professor de Hannah garantia que dezenas de espécimes circulavam pela Floresta Estadual Edmundo Navarro de Andrade (Feena).

Outro conflito carregado por Hannah, era quanto ao mito que se criava em cima da onça em consequência da forma na qual a imprensa veiculava sua existência na floresta. Medo, temor e outros adjetivos que colocavam o felídeo como vilão, motivavam a jovem a desvendar mais informações de seu comportamento, para desmitificar à cidade que sua existência seria um risco.

Era um fim de semana. Em posse de seu caderno de campo, Hannah Ayumi preparava sua mochila rumo ao Horto Florestal, mas, não sabia que aquele dia reservava algo de especial. Nos itens obrigatórios constavam binóculos, um colete com vários bolsos para acomodar suas anotações, um chapéu para protegê-la do sol, água, repelente, protetor solar e lanternas.

Como estava muito ansiosa para rastrear os passos de alguma suçuarana, Hannah decidiu convidar um colega do Departamento de Zoologia, especialista em aves, para que pudesse estender seu tempo na mata. Até alimentos constavam em sua mochila, caso precisassem permanecer por mais tempo na Feena – decisão esta que não comunicou ao amigo.

Embora tenham objetos de estudos diferenciados, o amigo da pesquisadora – apelidado pelos colegas de departamento como “Tucano” – tinha o olhar de uma águia e o silêncio de um beija-flor, qualidades imprescindíveis para uma observação em campo de qualidade.

Hannah e Tucano estavam a caminho da floresta. Pela estrada de terra, eles adentraram na unidade em um jeep que a jovem havia ganhado dos pais. Era mais ou menos duas horas da tarde quando decidiram desbravar as trilhas do Horto. Circularam por horas, entre os caminhos mais inóspitos da floresta. O caminho implicava passar em terrenos acidentados, com desníveis e irregularidades. Somente um carro com tração nas quatro rodas poderia suportar esse relevo. O pôr-do-sol logo ao horizonte, anunciava ao casal de amigos cientistas que o crepúsculo estava por vir. Tucano se mostrou preocupado com o horário, mas, ao olhar nos olhos quase que felinos de Hannah, percebeu que seria inútil atentá-la para o tempo. Fora isso, ele também guardava um sentimento por Ayumi: desde a graduação escondia seu amor pela cientista.

Depois de dar inúmeras voltas pelo Horto Florestal, Hannah percebeu algo que não estava em seus planos. O combustível do seu carro de campo estava acabando. O casal de amigos estava próximo a uma pedreira, e, naquela região era muito difícil encontrar algum vigia ou qualquer movimentação humana. Foi então que, beirando o paredão da pedreira, o motor começou a falhar. A jovem pesquisadora comunicou Tucano sobre o problema.

– Tu, acho que o combustível está acabando – disse ela.

– Como assim? Já está tarde Hannah, não conseguiremos pedir ajuda nesse horário – respondeu preocupado.

Hannah, que dirigia o carro, abriu a porta e já foi logo no porta-malas para pegar todos os equipamentos. Retirou uma lanterna da mochila para ela e deu outra para o rapaz. Nessa hora, os grilos já cantavam e as corujas comunicavam entre si, em uma espécie de lamento coletivo que carregava todo o mistério das noites na floresta.

Hannah e Tucano começam a discutir. Ele acusa a amiga de não ter se preparado adequadamente para uma saída de campo responsável. Começar a falar que ela foi tomada pela ansiedade, inimiga número um dos cientistas.

– Tudo pelo bem da ciência. Vamos aproveitar que está escuro. É o horário preferido dos meus amigos felinos. Quem sabe, teremos sorte em encontrar algum deles circulando nesta área. Tudo tem seu lado bom, Tu – tentou convencê-lo com um ar de otimismo.

Enquanto planejavam como seria a noite, um barulho chama a atenção dos ouvidos de Tucano. Rapidamente ele vira a cabeça, e faz sinal de silêncio para Hannah, apaga a lanterna e começa a caminhar em direção ao ruído. Hannah foi logo atrás do amigo, agarrada em seu braço e em passos lentos.

[Continua]

Não acompanhou o primeiro capítulo? Não tem problema 🙂

Saiba como foi o início dessa trajetória clicando aqui.

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