Favari Filho

Cantiga de ninar

A mãe de PC entoava clássicos do samba para ninar o filho que cresceu saudável musicalmente e continua com um gosto apurado. Em sua casa, no subúrbio de Carapicuíba – como em tantas outras das periferias de todo o Brasil, inclusive a minha lá no Cervezão –, era comum às crianças crescerem com as vozes de Roberto Ribeiro, Martinho da Vila, João Nogueira, Bezerra da Silva, Almir Guineto e do trio ABC [Alcione, Beth Carvalho e Clara Nunes] como fossem as de um parente próximo que chega de repente no meio do dia trazendo a alegria e o sorriso largo estampado no rosto.

“Todo menino é um rei e eu também já fui rei, mas quá! Despertei!”; “Canta, canta minha gente deixa a tristeza pra lá”; “Não, ninguém faz samba só porque prefere, força nenhuma no mundo interfere sobre o poder da criação”; “Pega eu! Pega eu que eu sou ladrão. Pega eu! Pega eu que eu sou ladrão!”; “Olha vamos na dança do Caxambu: saravá, jongo, saravá. Engoma, meu filho que eu quero ver você rodar até o amanhecer”; “Quem ainda não viu tambor de criola do Maranhão? Afinado a soco tocado a murro dançado a coice e chão? Criola, criola”; “Chora! Não vou ligar [não vou ligar] chegou a hora vais me pagar, pode chorar!”; “E de guerra em paz de paz em guerra, todo o povo dessa terra quando pode cantar, canta de dor. Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô”.

Como que girando o botão do dial para trocar as estações, quem leu o parágrafo anterior cantando mentalmente tem mais de quarenta anos ou cresceu em um ambiente musical fértil e, certamente, reconhece a diferença entre o descartável e o perene; trechos como os citados, aliás, podem [e deveriam!] ser usados como cantigas de ninar, pois tornarão as crianças em adultos melhores nestes dias caóticos, nulos de preferências sinceras e repletos de desonestidades sonoras. Era o que PC ouvia, o que eu ouvia e, provavelmente, o que você que acompanha meu raciocínio até aqui ouvia naquele fim dos anos 1970.

No início dos 1980, o Hip-Hop – cuja criação é atribuída à Afrika Bambaataa – sairia do Bronx, atravessaria a Linha do Equador e faria primeiramente a cabeça dos garotos da Rua 24 de Maio e do Metrô São Bento, em São Paulo, para depois ser disseminado por todo o Brasil. Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro, a Blitz de Evandro Mesquita e Cia. inaugurava o BRock 80 – gênero que colocou o País na Ordem do Dia do Rock n’ Roll. Ambos os ritmos dessa década invadiram as éfeêmes e, junto com o Samba, fizeram a cabeça dos jovens e formaram [formam e sempre formarão!] toda uma nova geração.

Mas essa minirretrospectiva musical que puxo agora da memória aflorou porque acabo de colocar para tocar o LP Benito de Paula – Ao Vivo, de 1974, um importante álbum que ganhei do amigo PC e que, entre outras, contém ‘Charlie Brow’, ‘Prelúdio nº 4’ e ‘Meu Enredo’. Sou suspeito para afirmar [até porque fiz da música o meu norte desnorteador], mas a Primeira Arte, definitivamente, tem algo que toca profundamente o mais intrínseco dos sentimentos e faz com que sejamos mais HUMANOS. Contudo, o que entristece é que musicalmente não há nenhuma perspectiva de humanidade presente nas produções atuais e, ao contrário de PC, eu e talvez você, que lê esta crônica – que tivemos um contato de transcendência com a música –, os jovens seguem expostos à superficialidade das batidas sem harmonia/melodia somada a ausência total de poesia, infelizmente!

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