Carine Corrêa

Cada um por si e Deus por todos

Em um primeiro momento pensei em não falar sobre o assunto, mas dada a tamanha violência, seria impossível…

Em uma noite desta semana enfrentei uma situação na qual envolve temas que sempre abordo neste espaço. Violência, machismo e barbárie. Confesso que talvez pela descrença na chegada rápida de uma viatura policial, agi irracionalmente. Passava de bicicleta por uma avenida quando ouvi alguns gritos. Os gritos eram de uma mulher que estava sendo agredida por um homem na beira de um portão.

Naquela avenida, a vida das outras pessoas pareciam seguir alheias aquele acontecimento. Sensibilizada e me vendo naquela mulher, parei e conversei  com duas jovens que também estavam ali perto. “Vocês estão vendo a mulher ser agredida? Já acionaram a polícia?”, perguntei com a voz trêmula pelo  nervosismo da situação.

Sem uma resposta prática ao momento, retirei rapidamente o celular da minha bolsa para discar o 190, mas, os gritos mais uma vez paralisaram meus sentidos e minhas ações. Nesse momento, algumas pessoas saíram da casa e afastaram o agressor. Ele passou do nosso lado e perguntou: “Gostaram do show?”

Afetada pela agressão, como se tivesse acontecido em mim gritei em resposta a pergunta: “Machista!”. Pra quê. O sujeito desceu da bicicleta e veio para tirar satisfação. Com medo e oprimida, me aquietei a postura dele, claro. Ele, em sua atmosfera violenta saiu bufando com a ausência da minha réplica.

Fui para casa com medo. Medo de ser seguida pelo homem, medo da falta de controle das pessoas, medo até da minha sombra. Em casa desabafei com um casal de amigos. Mais calma e acariciando o meu gato, comecei a refletir sobre essa questão da violência, da insegurança. Me questiono se a inércia das pessoas ou a falta de sensibilização a barbárie não seriam piores que o ato violento. Ou fariam parte desse cenário.

Recentemente li um texto do Leonardo Boff sobre a questão do amor como solução deste cenário. “Não foi a luta pela sobrevivência do mais forte que garantiu a persistência da vida e dos indivíduos até os dias atuais. Mas a cooperação e o amor-relação entre eles. […] Os ancestrais hominídios passaram a ser humanos na medida em que mais e mais partilhavam entre si os resultados da coleta e da caça e compartilhavam seus afetos. A própria linguagem que caracteriza o ser humano surgiu no interior deste dinamismo de amor-relação e de partilha”

Ele também sugere um dos fatores que poderiam ter levado a este cenário violento. “A sociedade moderna neoliberal e de mercado se assenta sobre a competição. Por isso é excludente, inumana e faz tantas vítimas como a atual crise revelou. Ela não traz felicidade porque não se rege pelo amor- relação”

O caminho é a humanização e para isso são necessários mecanismos de transformação..

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