Favari Filho

As benzedeiras e o mundo moderno

O avanço tecnológico trouxe muitas comodidades que se tornaram indispensáveis em nosso dia-a-dia, porém ao mesmo tempo em que com algumas ganhamos, com outras perdemos. O acesso à informação tornou dispensável o que tinha muita importância até bem pouco tempo atrás e qualquer dúvida que temos, logo recorremos à internet. Assim como antigas manifestações culturais, o velho dicionário Aurélio e a enorme Enciclopédia Barsa foram substituídos pelo Google e para qualquer coisa que quisermos saber, desde como montar um ventilador de teto ou como curar um cobreiro, recorremos à poderosa ferramenta.

Há não muito tempo atrás, a figura da benzedeira, por exemplo, era presente em qualquer comunidade. Para lombriga, cobreiro, quebranto ou até mesmo uma íngua, tínhamos a benzedeira mais próxima para recorrer. A técnica de benzer é um importante elemento da cultura popular do Brasil e sua origem está arraigada no sincretismo religioso que, muitas vezes, impressionou a ciência oficial com seus efeitos. As benzedeiras comumente são senhoras da própria comunidade, que recebem os ensinamentos dos antepassados, sempre de forma oral – razão pela qual não existem registros sobre fórmulas de benzimento.

As senhoras rezadeiras, detentoras de uma técnica talvez secular, seguem a combater os males do corpo e da alma e a fortificar a cultura em um rito de orações decoradas ou espontâneas, porém aos poucos, infelizmente, estão sendo extintas. Não sei se ainda existem muitas, mas há tempos que não ouço falar de nenhuma. Como bem disse o poeta: “Di Cavalcanti, Oiticica e Frida Kahlo tem o mesmo valor que a benzedeira do meu bairro”. O bardo tem razão! As benzedeiras são patrimônios culturais!

Entre as que fizeram parte da minha vida e permanecem vivas na minha memória estão dona Rosa, dona Avelina, dona Senhorinha e dona Benedita. Quase não me lembro de seus rostos, mas não esqueço aquele murmurar baixinho de palavras incompreensíveis enquanto as mãos faziam pequenos gestos segurando algum tipo de objeto. Dona Rosa era uma senhora com cabelos grisalhos e olhar distante. Para entrar em sua casa havia três degraus logo depois do portão. Descíamos na estação, atravessávamos o pontilhão da Avenida 7 e seguíamos caminhando paralelo ao muro da Cianê. Depois virávamos à direita e lá estavam os degraus.

Dona Avelina morava do outro lado da rua, duas casas à esquerda da que nasci. Além de benzer, plantava salsinha e cebolinha que distribuía gratuitamente aos vizinhos. Tinha também um belo jardim com rosas vermelhas e brancas que os garotos da rua roubavam quando queriam impressionar alguma garota. Quando menino tinha muitas ínguas, talvez devido aos ferimentos nas pernas adquiridos nas vezes em que subia nas enormes árvores do quarteirão enquanto brincava de esconde-esconde, e com uma faquinha de pão na mão era tiro e queda, a benzedeira da rua com sua reza cortava a minha íngua.

Já dona Senhorinha (nunca soube se esse era o seu nome verdadeiro) benzia somente crianças. Era comum ver recém-nascidos saindo de sua casa com um fiapo de linha vermelha na testa. Lembro que, logo na entrada, tinha um crucifixo na parede da sala que eu ficava observando enquanto fazia gestos com as mãos e passava o polegar na testa do garoto. Sua casa ficava a algumas quadras de distância da nossa e até hoje quando passo por ali, refaço na memória o caminho que tantas vezes fiz com o meu irmão.

A casa de dona Benedita era bem no fundo do terreno, uma espécie de edícula. Do portão era possível avistar a varanda já com algumas pessoas em pé esperando para serem atendidas. O quintal grande com diversas árvores de médio porte e o chão de terra batida davam ao local um ar bucólico. Uma enorme mangueira tornava a noite ainda mais escura. Até chegar a nossa vez ficávamos por ali, o pai, a mãe, meu irmão e eu. Depois entrávamos e, um a um, benzia em voz baixa e gestos curtos sentada em uma poltrona vermelha.

Claro que ainda devem existir as benzedeiras, mas desde que partiram as com quem tive contato, nunca mais ouvi falar de nenhuma e tenho a impressão de que estão diminuindo. Isso se deve talvez ao acesso a toda e qualquer informação que dispersa a nossa curiosidade e afasta o compromisso; também a pressa cotidiana que, como sempre, deixa morrer tradições que além de contribuir para o nosso conhecimento são essenciais para o enriquecimento de nossa cultura. Será que dentro de algumas décadas ainda vão existir as senhoras benzedeiras? Não há como saber, contudo para o bem ou para o mal, hoje o mundo cabe na palma da mão e como bem frisa aquela canção “até o santo se baixa pela internet e o milagre se repete, nem precisa pagar frete”.

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3 Comentários

  • Marcelo Venancio
    12 de novembro de 2014 - 22:58 | Permalink

    Parabéns mais uma vez ! Você me fez recordar da Dona Benedita, que morava perto de casa, e hoje moram os filhos, netos, a casa continua a mesma somente com algumas modificações tipo portão, pintura. Ah! Dona Benedita, minha mãe quantas vezes me levou e meu saudoso e amado irmão para ser benzido. Ela rezava baixinho passando suas santas mãos em nossos rostos e dali saíamos curados e com uma fé enorme em nossos corações. Segundo conta minha mãe, quando ela estava grávida de meu Irmão (Luis Fernando) a Dona Benedita disse que meu irmão estava com o cordão umbilical enrolado em seu pescoço e a noite após ela benzer minha mãe, ela foi até a maternidade e as 6h20 da manhã meu irmão nasceu, e o médico disse que havia marcas no pescoço e que realmente o cordão havia estado enrolado e que por um milagre havia soltado.Essa era a Dona Benedita! Adorava ficar ali sentado e conversando com Dona Benedita antes de ser atendido. Que Saudades que me deu. Odair obrigado por ter me feito recordar bons momentos e agradeço a você pela força que tem me dado.

  • maria Aparecida
    13 de dezembro de 2015 - 15:53 | Permalink

    por favor a Dona Benedita ela ainda e viva,pois gostaria de ve-la,

  • Valeria
    26 de setembro de 2016 - 09:43 | Permalink

    Por favor alguem conhece uma benzedeira de criancas, pois minha netinha nao esta dormindo a nite, deve ser quebrante, mau olhado. Moro em Jundiai

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