David Chagas

AS PIPAS, AS GUIRLANDAS E A VEREANÇA

Você sabe que Rio Claro, a Cidade Azul, azul até demais, neste maio que vai ao fim, tem, agora, o dia municipal para a soltura de pipas? E insere em seu calendário o Festival de Guirlandas italianas?

Não se avexe não. Tudo isso foi devidamente aprovado pelos nobres edis que compõem a Câmara de Vereadores da cidade.

Preocupa-me ver como se ocupam com tarefas importantes este senhores a quem oferecemos nossos votos. Ou lhes falta assessoria adequada que indique rumos, já que desconhecem os caminhos?

A água está exageradamente cara? Não importa. Solte pipas ou faça guirlandas italianas. Junta-se ao valor da água, em igual proporção, o preço do esgoto elevando ainda mais os gastos da família? Ocupe-se com atividades folclóricas e divirta-se.

A taxa de luz poderia não ter sido criada com em outros tantos municípios do estado? Faça pipas e guirlandas e se ponha a vender. Com isso, pode aumentar a renda familiar e pagar em dia estes novos compromissos que a cidade cria sem preocupar-se jamais com o bem estar do seu povo.

Quem mandou prender pipas? Feitas, elas precisam voar. Há que levantá-las, erguê-las, embicá-las, fazê-las voar. Não me parece próprio o termo soltura, porque não estão presas. Já que se criou o dia Municipal ele deveria, isto sim, ocupar-se do aspecto cultural deste divertimento infantil, entrar para dentro das salas de aula, desafiar professores a que fizessem desta atividade mais uma das muitas oportunidades didáticas de ensinar história, folclore, associados à matemática, ao desenho geométrico, às primeiras noções de física, indicando, inclusive, algumas noções de meteorologia, a importância de saber como se comporta o tempo e o clima, com suas variações, a observação do céu. Em caso de céu nublado pode soltar pipas, mas não empiná-las porque o fio que as eleva é condutor de corrente elétrica e não combina com raios e trovoadas.

Fosse o vereador preocupado com Educação formal, deveria ter aproveitado esse material todo em favor da aprendizagem. Saberá ele que esta brincadeira infantil se incorpora ao folclore brasileiro, porque a pipa, o papagaio, a pandorga, a raia, nasceu mesmo foi na China. Agora, quando a China, por força de sua economia vai ficando cada vez mais global, não me estranha que festejem uma criação dela, em dia municipal no Brasil.

O mesmo vale para guirlandas italianas que trazem, segundo a vereadora, resultado econômico para a Rede Feminina de Combate ao Câncer. Na verdade, esta rede, pelo seu trabalho, merece todo tipo de apoio e recompensa. O município, no entanto, a partir do momento que se envolve com uma atividade desta, deveria ocupar-se mais da educação fundamental para levar para a escola uma série de conceitos que andam fora de moda, dentre eles, a importância da solidariedade, do trabalho voluntário, do acolhimento.

Se assim não for, vira folclore, isto sim, no pior sentido do termo. Por quê? Porque há, na cidade, outras tantas coisas de fundamental importância que passam desapercebidas aos olhos dos edis e deveriam ser objeto de seu trabalho.

Ouvinte que me chama ao telefone para falar disso e, por certo, neste instante me ouve, indignado me pergunta a que leva este nada fazer legislativo. O que mais falta inventar? Por que, ao invés de empinar pandorgas, pipas e papagaios, não se criou um festival entre escolas para ajudar, neste mundo dominado pela tecnologia, a redescobrir brincadeiras que fazem bem à alma e à vida? Não se estresse com nada. Se algo lhe perturbar o dia, entregue-se a fazer guirlandas italianas ou a preparar pipas e vá viver de folclore.

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