Favari Filho

Ainda o samba

Outro dia, citei uma canção gravada por Roberto Ribeiro enquanto comentava em uma crônica sobre alguns sambas dos anos 1970 e 1980. A música “Todo menino é um rei e eu também já fui rei, mas quá! Despertei!”, composição de Nelson Rufino e Zé Luiz, fez muito sucesso no Brasil a partir do lançamento do álbum Roberto Ribeiro, de 1978, e povoou a mente dos meninos que sonhavam um reinado colorido e que, mais tarde, acordaram para a realidade em preto e branco da vida, mas, ainda assim, não deixaram de cultivar a poesia dos versos cravada para sempre na memória.

Cantor e compositor [são suas as canções ‘Quem sabe amanhã’ e ‘Rosas do mar’ (em parceria com Toninho Nascimento) e ‘Império bamba’ e ‘Noite Amiga’ (com Joel Menezes), além da impagável ‘Sorri pra Vida’ (composta com a esposa Liette de Souza)], Roberto Ribeiro nasceu filho de jardineiro e, talvez por isso, soube tão bem como regar “as flores de que rezam velhos autores”. Algo possível de ser feito apenas por alguns poucos que têm a grande paciência de burilar os versos e sincronizar melodia e harmonia na cadência do coração.

Liette – com quem construiu uma vida a dois e teve um filho [Alex Ribeiro, um dos grandes nomes de uma das mais tradicionais escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro, a Império Serrano] –, a propósito, é uma excelente compositora e, junto de Serafim Adriano, compôs ‘Divina Aurora’; já com Flávio Moreira escreveu os imprescindíveis versos de ‘Amor de verdade’, obrigatórios em qualquer roda de samba que cultive o clássico: “Tem, que ser agoooora ou nunca mais; deixar pra amanhã por quê? Se hoje há tempo demais…”.

‘Amor de Verdade’, aliás, foi lançada no disco Poeira Pura, de 1977, do qual, entre outras, consta a faixa homônima [todos comigo!] “Pó, pedra, pau, poeira sou rei da pedreira, vindo do pó de lá… vindo do pó de lá; pó, pedra consagrada, eu sou o tudo e nada justo no julgar, seja lá ou cá, seja lá ou cá”; também a deliciosa ‘Propagas’ [“Por que é que me propagas pelas ruas com prazer, se todo mundo sabe que é despeito de você?”] – com uma certeira e precisa escala de cavaco em dó menor – e ‘Prece a Xangô’ [a minha preferida!].

Mas voltando ao álbum de 1978, vale relembrar “Leve a vida que você quiser, faça tudo aquilo que você pensar pode até cair na orgia madrugada afora varar a boemia” e finalizar com esta pérola de Silas de Oliveira e J. Llarindo eternizada por Roberto Ribeiro – este sambista que há pouco mais de vinte anos deixou de marcar presença nas rodas: “Sinto abalada minha calma, embriagada minha alma efeitos da tua sedução; Oh! Minha romântica senhora, tentação não deixes que eu venha sucumbir nesse vendaval de paixão”. Pois é, em tempos de caos sonoro é sempre bom lembrar que o samba [ainda o bom e velho samba] continua correndo nas veias de todo brasileiro e, como um vírus bom e sem cura, continua a apontar um caminho para além das mesmices sonoras vazias de afeto e carentes de sentidos. É isso!

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