Favari Filho

Enxugando gelo

Abro a segunda long neck de Skol em uma loja de conveniência, são 20h45 de um dia estafante. Na tevê, o canal de música da Net selecionado nos Anos 1990 garante o background enquanto leio a coluna semanal do Humberto Werneck, é terça-feira. ‘Don’t Look Back In Anger’, do Oasis, no volume seis, soa no alto-falante do aparelho, mas não só, soa também como um sussurro ao pé do ouvido; pego o lápis e inicio o esboço de uma possível crônica cotidiana.

A quarta canção do segundo álbum do grupo britânico intitulado ‘(What’s the Story) Morning Glory?’, de 1995, trouxe à memória o garoto trôpego que adorava desafios intelectuais e brigas de braço, que sempre acreditou que ‘è meglio vivere un giorno come un lupo che vivere mille anni come una pecora’. Mas o tempo, esse mano velho, definitivamente, macera e, hoje, nada além de silêncio e a vista cansada. [Bebo a cerveja e, existencial, reflito] Olhar para trás sem raiva, diz a música popularizada pela banda dos irmãos Gallagher e, diante do atual cenário musical, concluo: olhar para trás é o que dá menos repulsa, para trás e à margem do que é disseminado pelo mercado fonográfico.

Sim, porque ao mesmo tempo em que as emissoras de rádio [reféns e cúmplices do jabá] e a internet [essa terra de ninguém] insistem em espalhar, como metástase, esse modilho de rimas pobres e conteúdo nulo, a boa música [sim!, a boa música ainda existe!!!] continua sendo produzida e em todos os gêneros; veja, por exemplo, Vanguart e Vespas Mandarinas, no rock; Vitor e Leo e Paula Fernandes, no sertanejo; Roberta Sá e Diogo Nogueira, no samba; Criolo e Projota, no rap; enfim, são artistas com conteúdo e qualidade no que produzem e que até têm, sim, alguma penetração, mas muito pequena perto das besteiras que martelam os neurônios e forjam uma alegria exacerbada que, no fundo, é triste!

A música é transformadora e extremamente importante para a formação de qualquer ser humano, além de ter o poder de transportar qualquer um para qualquer lugar, longe ou perto, através da imaginação. Em um átimo de segundo é possível rememorar a cor da roupa que vestia no dia mais feliz ou no dia mais triste da vida; de trazer à tona as antigas tratativas formuladas no alto dos quinze anos em nome das classes, da natureza, das minorias, por um mundo melhor; ou o rosto daquela (e) garota (o) que sentava na carteira da frente na escola; “a música é capaz de reproduzir, em sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria”, bem constatou o autor da nona sinfonia.

Enquanto leio, penso, bebo, escrevo e insisto: a música ruim produzida no passado soa melhor que o lixo sonoro que rebaixou a cultura do brasileiro ao nível extremo. Clemilda e o seu recado para a comadre Zetinha tem muito mais valor estético que todos os “batidões” que, segundo os defensores do gênero, servem para “incluir e integrar as classes sociais” [ah, para, vai!] juntos. A ‘Patética’ de Beethoven ou a ‘Princesa’ do Amado Batista são capazes de unir o presente à memória e conduzir a algum momento que dilacera ou inebria; agora pergunto: daqui alguns anos [acreditando que o funk e outras besteiras sonoras sobrevivam], haverá ainda essa condução pela música? Abro outra long neck, prefiro não pensar…

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