Dia do Teatro: o que comemorar?

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Vivian Guilherme

Neste dia 19 de setembro é comemorado nacionalmente o Dia do Teatro. A data homenageia uma das mais antigas manifestações artísticas. Mas, afinal, há o que comemorar no teatro da região? A atriz rio-clarense Aline Negra Silva e o diretor da Cia. Teatral Caboclo Ventura de Santa Gertrudes, Lázaro Maciel conversaram com o JC para falar sobre o assunto. Confira a entrevista:

JC: O teatro em Rio Claro tem motivos para comemorar?

Aline Negra: Respondo com outra questão: O que comemorar se há apenas um equipamento cultural funcionando com força total na cidade? E este equipamento que é gestado por uma instituição privada oferece um leque muito bom de atividades teatrais, mas infelizmente um! Comemorar? Comemoro o passado, quando a cidade era movimentada por eventos, ocupações teatrais na praça, reivindicações manifestadas por estudantes, comunidades e artistas. Comemoro em memória de grandes artistas que tiveram de sair da cidade, até do país para ter seu trabalho reconhecido como Ilion Troya, que desde a década de 70 está até hoje no grupo Living Theatre, fundado por Julian Beck e Judith Malina nos EUA. Comemoro Rio Claro ser o celeiro (e ainda continua, mesmo sem espaços para se desenvolver esta atividade) de artistas tão importantes que trabalham com teatro, arte e cultura.

Lázaro Maciel: Sim, pois as cidades da região, em sua maioria, possuem um ou mais grupos de teatro, o que já é importante para a divulgação e a ampliação do fazer teatral no interior paulista. No caso de Santa Gertrudes, o teatro reviveu após 40 anos e há três vem conquistando espaço na cidade. O que é importante e que vem acontecendo com frequência, são apresentações de grupos de outras regiões e até mesmo capital vindo para o interior, seja através do ProAc e demais projetos que são levados ao público gratuitamente no intuito de fortalecer o cenário cultural e de levar o teatro onde jamais seria possível, o Sesi – Rio Claro é outro local importante que traz ótimos espetáculos, brasileiros e estrangeiros. Mas creio que ainda é pouco e as dificuldades existem.

Atriz rio-clarense Aline Negra Silva é considerada um dos sete negros que fazem a diferença no teatro
Atriz rio-clarense Aline Negra Silva é considerada um dos sete negros que fazem a diferença no teatro

JC: Quais as dificuldades e o que poderia ser feito para melhorar o teatro na cidade?

Aline Negra: Atualmente a cidade vem enfrentando problemas com espaços físicos para apresentação e ensaios. A manutenção dos espaços públicos, seja em recursos físicos (equipamentos) até recursos humanos (equipe técnica e gestores), atualmente inviabiliza o desenvolvimento popular. Mesmo com a resistência de alguns grupos, o teatro a cada dia mais em Rio Claro, vem desaparecendo. Outro ponto que não comemoro são as dificuldades para fomentar grupos e apoio na circulação de espetáculos. Tudo ainda se faz “de graça” e ter o ofício de artista teatral começa demandar a procura de outros trabalhos em outras áreas e a profissão vai se tornando um “hobby”, minimizando e se auto-desprezando. Rio Claro, uma cidade que já teve grandes grupos. Uma cidade que já trouxe centenas de artistas importantes nacional e internacionalmente, desde o século XIX, nos extintos teatros Phoenix e São João. A pergunta é: Por que deixar manchar, apagar a memória artístico-cultural rio-clarense? Quais são os interesses? Por que não há uma preocupação em manter a memória viva? Tantas coisas já passaram por Rio Claro, tantas histórias, onde estamos em tudo isso?

Lázaro Maciel: Espaços como TEATROS, que possuem estrutura adequada para os grupos da cidade e até mesmo de fora, são poucos. Em Santa Gertrudes, por exemplo, não existe um teatro, o trabalho é desenvolvido em um Auditório, onde não possui nada além de um palco pequeno e cadeiras. E como atores, o improviso é certeiro. Temos que, a cada espetáculo improvisar coxias, entradas, cortinas, furar aqui e ali, a estrutura de luz e som é contratado pela Prefeitura Municipal, através da Secretaria de Cultura, que mantém e apoia o teatro no município. Pode-se fazer teatro em diversos lugares onde nada disso existe, mas toda essa estrutura faz do espetáculo um grande número onde atores, cenário, figurino, luzes, música entram num grande jogo com a plateia e na formação do ator é necessário que ele saiba trabalhar com todos esses elementos. Sinto a necessidade de Oficinas e Workshops de diversas expressões (modalidades) nas artes cênicas, que possam agregar conhecimento aos atores e grupos ou até mesmo uma escola de formação no interior. Pois é necessário conhecer as diversas linguagens existentes nesta arte e muitas vezes só conseguiremos indo para a capital. Sobreviver de arte, especificamente de teatro no interior, não é uma tarefa fácil. O preconceito ainda existe e a valorização de um trabalhador que leva até você conhecimento, história, lazer, cultura, evolução física e mental, ainda é pouca.

Lázaro Maciel é diretor da Cia. Teatral Caboclo Ventura de Santa Gertrudes
Lázaro Maciel é diretor da Cia. Teatral Caboclo Ventura de Santa Gertrudes

JC: O teatro do Centro Cultural atende às necessidades dos atores?

Aline Negra: Há muitos anos não me apresento neste espaço e a última vez que estive assistindo um espetáculo no Teatro do Centro Cultural foi no primeiro semestre deste ano. O que dizer de um espaço que ainda precisa de reparos, manutenção cenotécnica, compra de materiais, dentre outras coisas? O que dizer de um espaço que está fadado ao fracasso se não tiver dinheiro para se auto-promover com recursos de divulgação? Se não tem dinheiro para qualificar os profissionais locais em atualizações que estão a todo momento em movimento no mercado?  O que digo parece abrangente e não afetar aos atores, mas afeta diretamente, pois se não tenho uma equipe e um espaço físico prontos para atender as demandas dos grupos teatrais, infelizmente vai estar fadada ao esquecimento, pois sempre estará limitada para os grupos, limitada para novas demandas. Triste de ver um lugar que formou muitos atores. Um lugar que trouxe muitos atores e artistas envolvidos em um único ofício apaixonante: TEATRO.

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