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Publicado por: data 17-11-2013 14:42 em politica

Presidente do Conselho da Comunidade Negra fala sobre conscientização


Marcelo Lapola


Ouvir Divanilde Aparecida de Paula, ou dona Diva como é conhecida a querida presidente do Conselho Municipal da Consciência Negra em Rio Claro, é colocar os cinco sentidos na história recente do município e não contada oficialmente: a escravidão, na visão de quem a sofreu, não na visão dos muitos livros de História, narrados muitas vezes sob a ótica dos próprios poderosos, escravizadores.

Nesta entrevista ao Café JC, dina Diva conta relatos que ouvia de seus antepassados, do sofrimento do povo negro que, apesar de ter sido arrancado à força de sua África, trazido em navios para cá, escravizado, castigado, trabalhando incessantemente, ainda morria de amores por este País.


“Nos últimos quatrocentos anos, tudo o que foi feito neste País tem as mãos do negro trabalhador”, salienta Diva.


Não, não é comemoração pura e simples . O 20 de Novembro é uma data para reflexão. O Brasil, último país a abolir a escravidão nas Américas, aquele que explorou aproximadamente 4 dos 10 milhões de africanas e africanos que foram trazidos para exercer trabalho escravo deste lado do Atlântico, e possui hoje o maior número da população negra fora do continente africano.


“Nasci em Rio Claro, minha família começou a vida na Fazenda Mata Negra. A primeira descendente minha negra que chegou a Rio Claro não tinha família, porque as famílias eram todas desfeitas pelos traficantes de escravos. Mas ela começou a formar uma família aqui. Hoje somos muitos. O sobrenome De Paula vem daqueles que nos escravizaram por aqui. Nosso real sobrenome ficou na África. Minha avó falava muito de nossas origens Nagôs e da região da Guiné-Bissau”, conta Diva.


Dona Diva relata que o sofrimento dos escravos libertos para arrumar serviço após a abolição da escravatura era ainda maior em Rio Claro, fruto de um acordo sórdido feito pelo Barão de Grão Mogol e o Barão de Porto Feliz.


“Quando resolveram dar terras aos negros, o Barão de Grão Mogol fez uma reunião na Casa do Barão de Porto Feliz e lá decidiram que, se os negros não produzissem nas terras, eles pegariam de volta essas propriedades. Mas combinaram com todos os comerciantes para que não negociassem com os negros. De que modo então o povo ia trabalhar?”, ressalta.


O Barão só se antecipou na abolição dos escravos em Rio Claro em fevereiro, porque já sabia que em maio ia acontecer. Ele queria entrar para a história. Ele trouxe para RC uma delegacia antivadiagem. Minha bisavó, que certamente tinha mais de 100 anos, contava que eles andavam pelas ruas procurando desesperadamente por trabalho. Nesse ínterim, os imigrantes começavam a vir. Muitos então eram espancados e presos. Tentavam negociar as sementes e as ferramentas para que depois, quando colhessem, pudessem pagar, mas pouco conseguiam”, conta Diva.


De lá para cá, muitos avanços ocorreram, sem dúvida. Mas, para dona Diva, é preciso haver uma ampliação maior da consciência da igualdade no País e em Rio Claro.


“Rio Claro infelizmente ainda é uma cidade com muito racismo contra o negro. Sei do que estou falando, porque recebemos as denúncias. Em todos os lugares há um preconceito velado que precisa acabar de uma vez por todas”, enfatiza.

“Veja o que aconteceu com o seu Benedito Santana (vítima de agressão que levou à sua morte, motivada por racismo). Isso abriu uma ferida na minha cidade”, atesta.



REPARAÇÃO


Diva cita o caso da Chácara dos Pretos, que tem sido apurado pela Justiça e pelo Governo Federal, no qual uma fazenda muito grande teria sido doada aos ex-escravos pela sua proprietária, e em seguida essa área foi roubada por meio de golpes e artimanhas de grupos de pessoas poderosas daqui.


“Esse caso é emblemático sobre como a cidade tratou o negro após a abolição. Era a Fazenda Palmeiras, o que chamam de Chácara dos Pretos, foi doada pela fazendeira, porque ela ficou doente. Era uma área muito grande, onde inclusive hoje estão as Faculdades Claretianas, Rodoviária, e outras propriedades. Uma reparação justa seria a titulação da área que ainda resta para as mãos dos descendentes”, diz dona Diva.




Esta é uma reprodução da notícia publicada na edição impressa do Jornal Cidade
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