Favari Filho

Pt. saudações

Dez anos se passaram desde que o escândalo do mensalão veio à tona. A partir daquele fatídico instante, nós brasileiros, somos cotidianamente vilipendiados por notícias que reportam um sistema nefasto de corrupção que foi elevado ao posto máximo de profissionalismo e que fez com que a situação brasileira chegasse ao ponto em que se encontra, no qual os impostos sobem compulsoriamente dobrando o custo de vida e catapultando os preços das prateleiras à enésima potência, fato que afeta diretamente a vida do cidadão comum.

Hugo von Hofmannsthal, escritor e dramaturgo austríaco, dizia: “Nada está na realidade política de um país se não estiver primeiro na sua literatura”. O que posso dizer a respeito da afirmação é que não faltaram avisos de que se tratava de uma tragédia anunciada, basta uma googlada para constatar. No dia 18 de maio de 2005, a revista Veja divulgou em uma matéria de oito páginas o conteúdo de um vídeo no qual o ex-chefe dos Correios, Maurício Marinho, solicitava propina para beneficiar um empresário em nome do ex-deputado Roberto Jefferson – que acaba de deixar a cadeia (?) para cumprir pena em regime aberto e, pasmem, se casar nesta sexta-feira (29) em uma cerimônia para trezentos convidados no valor de 100 mil reais. Dai para frente o que assistiríamos era a derrocada de uma parcela significativa de políticos a quem os brasileiros confiaram o voto.

Muito foi falado a respeito daquelas “suspeitas” de corrupção e os envolvidos tentaram a todo custo se livrar das acusações, porém os fatos não corroboravam os argumentos. No dia 31 de julho daquele mesmo ano escrevi um artigo para o site A Voz – revista digital que mantinha em sistema de cooperativa com Anselmo LC, J. Costa Jr., Lourenço Favari, Ricardo Leão e Thiago Buoro (amigos de toda a vida remanescentes d’Opinião e cofundadores d’O Beta para os quais tenho sempre à mão um copo de água com um girassol) – em que discorria sobre a decepção com o partido caso tudo aquilo (que vem se comprovando) fosse verdade. Sob o título “As suíças do PT” registrei:

“Caso o presidente Lula ao assumir o governo tivesse agido conforme o combinado – mesmo contrariando alguns figurões da política – ainda assim, teria a aprovação da população, visto que era representante brasileiro com a maior votação para presidente da história do país. O Brasil estava com Lula e digo mais: o povo votou em Lula e não no seu partido. Mas, infelizmente, o presidente preferiu fazer uma aliança aqui um vínculo ali e aí surgiu o mensalão. Um fato, porém chama atenção: ao isentar o presidente e acusar José Dirceu, Roberto Jefferson deixa transparecer uma incoerência, pois, veja bem, como pode o chefe da nação não saber o que faz o seu braço direito?”

Pois é, havia algo maior que ainda não conseguíamos enxergar naquele momento e que hoje é claro: Lula é o capo. De lá para cá, o que se fez foi profissionalizar e expandir o modus operandi da corrupção transformando em regra aquilo que, talvez, fosse exceção. Nesses dez anos não há nada para comemorar além do fato de que é possível agora entender melhor as reais intenções daqueles que estão no poder desde 2003. Ainda que muita gente tenha saído ilesa, o brasileiro está mais atento aos fatos e vai, com certeza, através das urnas e do processo democrático, transformar a agremiação que queria fazer do Brasil uma republiqueta, em um arremedo de partido. O futuro é agora e, como dizia aquele antigo samba de Jorge Aragão: ♪ Pt. Saudações, adeus! ♪

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