Gabriel Ferrari

O herói não é Sérgio Moro

Sérgio Moro não é o herói

O Brasil tem atravessado um momento de expurgação do que é ruim. A operação lava jato está conduzindo uma verdadeira caça às bruxas na sociedade brasileira. Tem colocado atrás das grades políticos e empresários de todos os tipos.

Isso é uma evidência de corrupção sistêmica no país, de uma gangrena que não pode ser removida se não cortar na carne de todas as pessoas. Para ver a completa limpeza do país será preciso punir desde o político ao motorista que pára na vaga proibida. Ao consumidor que recebe troco a mais e se sente na vantagem. Os brasileiros gostam de assistir a essa grande novela política mas não estão preparados para essa mudança bater na sua porta.

Existem duas figuras principais que tem tomado o rosto dessa cruzada anticorrupção: O Juiz Sérgio Moro e o Procurador do Ministério Público Federal Dante Dallagnol. Ambos não fazem mais do que a obrigação de seus cargos, embora seja notado um empenho vigoroso em suas atribuições.

O juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallganol

O juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallganol

 

Elegendo heróis

O Juiz Sérgio Moro tem sido a coragem que Joaquim Barbosa não foi. Firme, implacável mas modesto, agindo na maioria das vezes sem procurar chamar a atenção para seus atos. Já o procurador Dante não se abstém de platéia e estimula a operação evidenciando  fatos à imprensa sempre que possível. No entanto, ambos sabem muito bem utilizar a tática de “morde-assopra” com a mídia.

Exemplos disso não faltam.Em meados de março Sérgio Moro saiu da surdina e quebrou o sigilo de parte da operação divulgando várias gravações de conversas do ex presidente Lula. O ato teve a estratégia de interromper a escalada de apoio à Lula e despertar a comoção pública, oferecendo um inimigo em comum. Ele correu o risco, e arriscou sua imparcialidade com a atitude(como você vai ver na charge abaixo). No entanto foi uma estratégia de sucesso, embora altamente polêmica da qual ele se desculpou posteriormente.

Meses depois, em setembro o procurador Deltan Dallagnol apresentou denúncia contra o ex-presidente lula, sua mulher e mais seis pessoas. O ato foi exaltado pelo bordão “Lula é o comandante máximo do esquema de corrupção” e a exibição de um slideshow icônico.

Slide de apresentação MPF

Slide de apresentação de esquema de crime organizado apontando para Lula

Apesar de denunciar crimes de corrupção ativa, o texto  da denúncia diz que “o fato de ele(Lula) não configurar como proprietários do triplex,é uma forma de ocultação de dissimulação da verdadeira propriedade.” Trata-se de uma denúncia com poucas provas concretas e por isso delicada demais. A atitude tinha como objetivo manter em banho maria o desgosto do povo brasileiro contra o capitão do PT, mas foi recebida como demasiadamente espetaculosa. Quase um tiro no pé do próprio procurador.

 

Heróis de Areia

Essas atitudes foram fora do escopo judiciário, ambas com o objetivo estratégico de de utilizar a imprensa. No entanto perdeu-se a sutileza, de maneira que em certos momentos a defesa de Lula foi até reforçada. Sozinhos os dois são capazes de cometer erros que podem comprometer o resultado e descredibilizar a luta contra a corrupção. Isso pode piorar com o povo brasileiro estimulando um complexo de herói neles. O poder pode corromper tanto o bom como o mau, e a vaidade é doce para todos.

sergio moro herói

Se Sérgio Moro é a cara da luta, então ao luta pode ser atacada.

O menor desvio de propósito pode tornar heróis em inimigos. No passado Lula foi o herói, hoje é conhecido como criminoso. Joaquim Barbosa foi eleito herói, mas foi levado pelas areias do tempo e hoje é conhecido como mero jurista de Twitter. O papel de herói personifica a causa, o que lhe dá vulnerabilidade. Faz parecer que a luta de todos contra a corrupção na verdade é um motivo pessoal do herói de acabar com o PT. Abre-se precedentes para duvidar da idoneidade desses  juristas e dizer que suas motivações por vezes são egocêntricas. Desgasta através deles a força de todo o movimento anticorrupção.

A conduta do herói pode ser questionada e sua imagem desgastada.

A conduta do herói pode ser questionada e sua imagem desgastada.

Enfraquecido o movimento, a parte vil e corrupta da classe política desfere seu contra-ataque, como aconteceu neste fim de novembro:
Em um momento de comoção nacional com a trágica morte de jogadores do time chapecoense em um acidente aéreo, os deputados aproveitaram o desvio de atenção para modificar uma proposta de lei anticorrupção e aprová-la na calada da noite como cabresto da operação que os caça.

pacote-anticorrupcao-desfigurado

Tenho certeza que os juristas aguardam uma comoção social para derrubar a medida. Sem isso precisarão trabalhar pisando em ovos contra uma corrupção que mostra sinais de evolução. O Senhor Sérgio Moro nada pode fazer neste caso, e depende da atitude de cada cidadão neste momento para que o senado não aprove tal pacote deturpado. Pra que serve um herói de mãos atadas?

 

O herói não é Sérgio Moro

O povo brasileiro precisa parar de chamar de herói essas figuras e entender que essa responsabilidade não é dos juristas. Cada cidadão precisa arcar com o peso da clava forte da justiça para agir contra a corrupção sistêmica, entendendo que o sucesso ou fracasso é de todos e não de um herói eleito. Quando você cria um herói, coloca toda a responsabilidade da causa sobre ele e tira de você.  É muito arriscado fazer isso.

A credibilidade de uma população unida não pode ser desgastada, enquanto que a figura de herói pode ser arruinada até ser destruída. Isso não é uma disputa onde o juiz Sérgio Moro é nosso campeão espartano lutando contra o campeão da corrupção. Se nosso guerreiro perder teremos que aceitar ditadura da corrupção onde nada mais poderá ser feito.

lula contra Sérgio Moro

O combate a corrupção não é a luta de dois campeões.

Isto na verdade é uma guerra fria onde seja juiz, carteiro ou padeiro, somos todos simples guerreiros, soldados de uma causa: um país de ordem e progresso. Então senhores, deixem o Sérgio Moro trabalhar quieto sem exaltações, não estimulem a vaidade do procurador Dante Dallagnol e vão à luta vocês mesmos. A luta deve ter apenas um rosto:a bandeira brasileira.

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Um comentário

  • Joice
    28 de maio de 2018 - 13:13 | Permalink

    Você escreve muito bem Gabriel, parabéns!

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