Favari Filho

Eu prefiro Ronnie Von

É sabido que o mercado da música sempre foi cruel e devido a esse fato muita gente boa ficou esquecida e outras tantas deixaram de acontecer. Atualmente, os empresários, gravadoras e emissoras vem exagerando nas doses de chorume que somos obrigados a ouvir, basta uma zapeada pelas rádios para constatar que a crise de conteúdo vem crescendo exponencialmente. A ditadura sonora sob a qual só toca o que vende e só vende o que paga, já dura longos anos e contribui tanto para o empobrecimento musical quanto para a inanição intelectual, principalmente dos mais jovens. Música não tem o dever e nem a obrigação de educar, eu sei, mas também não precisa fazer um desfavor à sociedade, não é mesmo?

Recentemente, assisti com minha mulher a um excelente documentário que, acredito muito mais que um acerto de contas com um dos mais talentosos artistas do país, é também um demonstrativo de como funciona o mercado fonográfico. Obrigatório para os amantes da boa música, o vídeo Ronnie Von – Quando Éramos Príncipes, do jornalista Ricardo Alexandre, dirigido por Caco Souza é riquíssimo em detalhes sobre o tempo em que o cantor passou no ostracismo e um ótimo exemplo de como o show business pode ser implacável, principalmente com aqueles que não seguem tendências e que têm a arte como bússola para suas existências.

Ronnie acaba de completar 70 anos de idade. Com uma carreira cheia de altos e baixos, o artista colhe agora os frutos de sua sinceridade musical. Além do documentário, uma recente biografia escrita pelos jornalistas Antonio Guerreiro e Luiz Cesar Pimentel foi lançada em julho. A redescoberta do cantor aconteceu há alguns anos com a popularização de seus discos na internet e a trilogia Ronnie Von, de 1969; A misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais, também de 1969; e A Máquina Voadora, de 1970, são verdadeiros achados musicais que cheiram como espírito adolescente.

Entretanto, na época em que foram lançados os álbuns o cantor foi colocado à margem, pois soavam diferente do que “vendia” e também por ficarem muito distantes do som quadrado de Roberto Carlos. Aliás, tudo que Ronnie não queria era parecer com sua majestade cantando baladinhas ingênuas em troca de sucesso. Quando entrei em contato com os seus trabalhos há alguns anos fiquei pasmo com a jovialidade, com os questionamentos e com a crueza do som ainda tão moderno, mesmo já passados mais de quarenta anos de seus lançamentos.

Ronnie se reinventou diante do boicote que sofreu e, desde 2004, apresenta o programa Todo Seu, na TV Gazeta. Da mesma forma que aconteceu com o pequeno príncipe há mais de quatro décadas, a indústria fonográfica continua punindo cantores e compositores que não se rendem ao mercado e ou não têm dinheiro para figurar entre os mais tocados. Enquanto isso, as músicas executadas nas rádios se tornam sucesso porque são amplamente difundidas e a repetição cria a ilusão de que são boas. Entretanto, afirmo que sem níveis de comparação não há como estabelecer parâmetros de qualidade. Eu prefiro Ronnie Von.

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Um comentário

  • Érik
    25 de junho de 2017 - 16:44 | Permalink

    a mesma visão que eu tenho… o trabalho dele é a temporal… Máquina voadora é uma obra prima

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